sexta-feira, 25 de março de 2011

Andei só



Ontem eu antes de dormir, coloquei ração para meu cachorro sem raça, tomei uma taça de vinho tinto, não, minto seco era o vinho, depois sai em caminho, nada na mente, limpa como a rua, vazia como cidade pós-bomba atômica. Caminhava friamente com a mente ávida por emoções, tendo pensamentos, visões, na verdade sonhos, sonhos impossíveis, ou certezas que por mais que possíveis eram improváveis, lamentável era a minha atual situação, sem emoção, nada de ação, sem noção de que poderia sim buscar felicidade, alegria que invade peito feito tempestade. Mas não, meus sonhos não eram grandes sonhos, eram grandes demais, longínquos demais, nem me preocupava mais com isso, aquilo, ou aquilo outro. Pra mim descansar em casa é pouco, eu sou anjo sem asa e louco.

É outono no hemisfério sul, o céu está azul escuro, eu não enxergo casas, vejo apenas altos muros, segurança fortificada de mentes alienadas, que não pensam em mais nada, somente em seu bel prazer, enfim, envelhecer em seus mundinhos mesquinhos, criar em seus coraçõezinhos uma cerca de espinhos que afastam o mundo, todo o mundo.
Está frio e eu caminhando sem direção, dia vazio de emoção, sensação de estar sendo observado por alguém que conheço bem, sendo calado pelas minhas próprias incertezas, havia fracassado, homem sem proezas, cheio de fraqueza, sem beleza e sem destreza, auto-ditada em poesia vazia de beleza.
Vento frio, olhares frios, árvores sem folha, vida sem escolha, vivendo em uma bolha, uma atmosfera inútil, uma esfera que me tornou fútil, mesmo sabendo que não é bem assim, não se está bem em todos os dias. Às vezes você sabe, a agonia te invade você precisa sair pra espairecer, ver a lua, a rua, ver crianças brincando, senhoras conversando, homens trabalhando.
Quando voltei pra casa, ao abrir a porta me senti como sem asas ou uma folha caída morta. Nada de certezas ou respostas, cheio daquela tristeza que vem e volta, como o mundo parece que as vezes dá voltas, em torno de que eu não sei saber, prefiro nem conhecer do mundo todos esses segredos, eu acho que seria um homem com ainda mais medos, incertezas e sem belezas pra oferecer, enfim, que noite sem fim, parece que nunca vai amanhecer, mas me lembrei daquela frase marcante, hoje não deu, quem sabe amanhã eu não volto pra esse meu divã.

“...O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.’’

Salmo 30:05

quarta-feira, 23 de março de 2011

Você chegou


Quando eu não esperei, andava por caminhos certos e já havia aprendido de que quando se espera demais pela hora, essa hora custa a chegar, então eu não esperava. Eu simplesmente vivia em torno do meu mundo simples, cuidava da minha saúde, ligava para meus mais, falava com Deus que estava muito bem, tentava me enganar que nada faltava. É eu não esperava. Como pode tudo mudar em tão pouco tempo? Mas mudou, quando eu a vi descendo do ônibus em um dia que já havia saído da rotina, fiz questão de olhar nos seus olhos. Procurava pela verdade, procurava por algo que já havia esquecido a possibilidade de existir, mas os seus olhos eram claros, eram lindos. Não eram claros somente porque são azuis, eram claros de verdade, da verdade que sempre procurei, que sempre sonhei.

Quando eu não sonhei, dormia em camas de espinhos em lugares sombrios e sem sopro de vida. Eu desisti de sonhar, as derrotas plantam seus pés no chão e a guerra te ensina a não ter medo da morte, sim da vida. Mas aqueles olhos claros me confortaram, eu sempre faço questão de olhar no fundo, as vezes parece que não acredito que consigo mesmo enxergar aquela alma, isso me aquece, a sua força me tirou da lama, me deitou em uma macia cama, que ousadia, pra completar a minha alegria ela me diz na cara que me ama.

Quando eu não mais chorei, olhava em todas as direções como um órfão numa multidão, os olhares maus viam somente que eu vestia uma roupa suja e rasgada, que meu corpo pequeno tinha cicatrizes e feridas abertas, mas somente portas fechadas. Não tinha lar, nunca tinha visto o mar, não sabia o que era amar. Mas um dia um olhar claro me confortou, me colocou na sua casa, cuidou das minhas feridas, me deu um nome, disse que quando estou por perto seus medos somem, ela sonha comigo, disse que dormindo e acordada. Mas quando eu não esperei, não sonhei, ganhei um tesouro precioso, desse dia em diante eu nunca mais chorei.

Por um segundo a vida parou, o vento errou a direção mas logo se encontrou, o guarda da muralha descansou, o menino de rua sorriu em um lar, aprendeu a amar. O luar não pareceu tão importante, noites de chuva inundaram as nossas vidas com histórias pra contar e pra lembrar, sempre juntos, quando não juntos a vontade de juntos estar, sem pranto, só nosso canto, sem medo, pesadelo nem espanto, somente você e eu em nosso canto, agora é por esse sonho que nas noites eu sonho e canto.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Vou indo


Eu vou indo pra onde o sol não descansa
Eu vou indo pra onde o medo se esconde
Eu vou indo pra onde o mar não invade
É um deserto de idéias que fala pouco
Falam somente o necessário, sorte sua se não mentirem.
Eu vou indo pra onde o natal nunca descansa
E a verdade jamais deixa de brilhar
Vou indo pra uma outra dimensão
Não preciso de portal
Não preciso ser imortal.
Todo menino é um rei,
Eu vou indo pra esse lugar, se é bom nem sei.
Eles me sugerem ser eu mesmo, sem máscaras.
Então, eu estou caminhando há dias,
Sem água nem pão
Sem sombra e sem perdão.
Hoje me disseram que esse lugar não existe.
Que eu sou um idiota que ainda insiste em crer no certo.
Mas “O certo é certo na guerra ou na paz
Se for um sonho, não me acorde nunca mais”
Uma chuva fria me acordou, molhou meu capuz.
O cansaço me seduz,
O medo me conduz a olhar pra trás
O medo é frio, calculista e sagás
Desistir é a melhor maneira de se enganar.
Eu vou indo pra onde não te enganam
Lá tem água limpa e não tem TV.
Não existe “Drogas, nem fome e nem polícia”.
Pronto pra qualquer coisa eu vou indo
Tenho fé no meu objetivo
“Foco na missão, não falo em tamanho
Falo de dimensão”
É difícil enxergar a fronteira pra onde eu vou indo,
Mas a fé no meu objetivo tem deixado tudo lindo.

terça-feira, 15 de março de 2011

Fênix


Nascido como um anjo sujo
Que caminhou descalço numa floresta de espinhos
Onde árvores o olhavam com olhos de navalha
E os canalhas dos piratas com olhos de vidro
Que tinham um rei no umbigo, o obrigavam a cavar
Tinham que esconder um tesouro num secreto lugar.

Envelhecido como um senhor do tempo
Que freqüentou a escola da vida de eternidade á eternidade
E ensina que o talento unido a força de vontade é invencível
Caíram homens tomados pelo medo do passado e futuro
Hoje flutuam feito estrelas em um céu escuro.

Solitário como uma águia numa montanha
A espera de um milagre que a salve de sua asa quebrada
Onde tudo e nada empatam um jogo de risco de morte
Fadada ao sucesso pela sorte
Ou ao fracasso da vida pela morte.

Desaparecido como um avião que partiu sem destino
Em rumo ao desconhecido, caído em lugar nenhum.
Onde ninguém da tripulação que não existia sobreviveu
E não se deu conta o mundo, ele nem lembrou do que esqueceu.
Hoje esperam pelo nada em lugar algum.

Renascido feito Fênix das entranhas de um mostro chamado mundo
Aprendeu a ler sem olhos, sujismundo.
A correr sem pernas e a voar sem asas.
“Longe de casa
Há mais de uma semana
Há dias e dias distante, do meu amor”...
Mas ela sabe que eu sou abelha e ela a minha flor.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Não sei



Eu não aprendi a sofrer
Não aprendi esquecer
Nunca sei fazer o que devo fazer
Nunca sei ir pra onde deveria ir
Eu nunca soube por que o céu é azul
Ou porque a escuridão foge da luz
E porque a luz que me conduz
Eu não sei por que dinheiro não cresce em árvore
E porque o perdão não se encontra por toda a parte
Eu não sei por que o planeta água é chamado de terra
E porque a mágoa dá lugar à guerra
Eu não sei por que virei adulto, tudo é mais complicado.
Na verdade eu não esperei pelo que devia ter esperado
Se eu tivesse procurado mais, talvez tivesse encontrado.
Eu preciso encontrar uma maneira
Pegar uma rabeira em um cometa
E viajar pelo universo
Talvez erros diversos como esses eu não cometa
Cometa outros, diversos e nada divertidos.
Pecados eu cometo todos os dias,
Dobro meus joelhos e baixo a minha fronte
Perante o amor,
Ele me ouve com carinho e atenção.
Ele me deu uma missão,
Deu um jardim com nome de coração
 Pra eu regar com emoção e convivência
Distrair com piadas sem graça e risos ternos
Passeios em dias de chuva num mundo moderno.
Eu não sei ser atleta
Também não sei ser poeta
Não sei ser presidente
Não sei também ser vidente
Não sei prever o tempo
Ou pra que direção vai o vento
Talvez eu não enxergue a um palmo do meu nariz.
Mas eu enxergo meu coração
E ele me diz que você me faz feliz.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Quando as rosas não falam



Quando as rosas não falam,
Consentimentos que se calam
Estruturas que se abalam
Aromas tristes se exalam
Rua não tem saída
Filmes não têm final
Os pássaros não migram no inferno
Anjos caem do céu para o inferno
Os astros não brilham
O vasto tornou-se pequeno e solitário
Parquinhos de crianças em calvário
As folhas secaram no outono
O trem que partiu nunca mais voltou
Aviões caíram e ninguém sentiu falta
O frio que entrou, pela janela
Apagou o fogo da lareira
Uma vida acabou cedo, ainda podia ser vivida inteira
Feliz e faceira
Agora triste, problemas mais que financeiros
Falta o brilho do sol, não importa o dinheiro.
“Devias vir, para ver os meus olhos tristonhos,
e quem sabe sonhar os meus sonhos.”
As noites são intensas,
Com intermináveis pesadelos medonhos
No rádio toca aquela canção triste
E um mundo mal que insiste
Eu, um ser fraco e imoral que facilmente desiste
Sim, existe
Uma alegria ainda contida
Um sonho de vida pela vida
Além da certeza de que preciso chorar
Navegar por mares tempestuosos
Onde monstros tenebrosos me vencem pelo medo
Tendencioso a partir desse mundo
Embora sabendo que o amor está logo ali,
E eu aqui, com o coração nas mãos
Ou em um reformatório,
Ou olhando pela janela do escritório
Um rato de laboratório que não aprendeu a amar,
Alcoolizado, com um cigarro e um copo de cachaça num bar
Um doente terminal numa mesa de cirurgia
Enquanto aquela música que insistia
E o final que fugia do fim
 Naquele dia...
Meu tempo parou mas o fim não chegou
Mas sim, a lágrima secou
Mas mesmo assim...
“Devias vir, para ver os meus olhos tristonhos,
e quem sabe sonhar os meus sonhos.”